Chancarlyne Vivian
Unochapecó
Resumo
O estudo investigou os níveis de Fadiga por Compaixão, Satisfação por Compaixão e Burnout em bombeiros brasileiros que atuam em contextos de desastre, buscando relacionar esses fenômenos às características sociolaborais dos profissionais. Trata-se de uma pesquisa de método misto, realizada com 555 bombeiros de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Na etapa quantitativa, os participantes responderam a um questionário sociolaboral e à escala Professional Quality of Life Scale (PROQOL-5); na etapa qualitativa, 66 bombeiros foram entrevistados, com os dados analisados por Análise Temática e depois integrados aos achados quantitativos.
Os resultados mostraram que, apesar da exposição constante a situações de sofrimento humano e risco de vida, os bombeiros apresentaram níveis elevados de Satisfação por Compaixão e níveis relativamente baixos de Burnout e Estresse Traumático Secundário, indicando um perfil de resiliência emocional. Ainda assim, a pesquisa identificou associações significativas entre maior escolaridade, mais tempo de atuação como bombeiro e jornadas semanais mais longas com escores mais altos de burnout e estresse traumático secundário, enquanto jornadas mais extensas se relacionaram a menor satisfação por compaixão. Militares praças (soldados, cabos, sargentos e subtenentes) mostraram maior probabilidade de contato direto com pessoas em sofrimento e vítimas de eventos traumáticos do que oficiais, o que os torna potencialmente mais vulneráveis à Fadiga por Compaixão.
A integração dos dados quantitativos e qualitativos revelou a coexistência de aspectos positivos e negativos no exercício do cuidado: por um lado, sentimentos de propósito, realização e prazer em ajudar; por outro, sinais de exaustão emocional, cinismo defensivo e dificuldade em processar lembranças de eventos críticos, especialmente aqueles envolvendo crianças ou a perda de colegas. Os autores destacam que a Fadiga por Compaixão é multidimensional e que fatores individuais (idade, escolaridade, tempo de carreira) e institucionais (carga horária, tipo de vínculo, cargo) interagem para determinar o equilíbrio entre o "prazer de cuidar" e o "desgaste psíquico" desses profissionais.
Contribuição para a sociedade: o estudo contribui de forma relevante ao trazer evidências concretas sobre um grupo profissional essencial e frequentemente negligenciado nas políticas de saúde mental ocupacional, os bombeiros que atuam na linha de frente de desastres. Ao identificar quais perfis sociolaborais (tempo de serviço, escolaridade, carga horária, cargo hierárquico) estão mais associados ao risco de adoecimento psíquico, a pesquisa fornece subsídios concretos para que instituições de bombeiros, gestores públicos e formuladores de políticas de saúde ocupacional desenvolvam programas de prevenção, capacitação e suporte psicossocial mais direcionados e eficazes. Isso tem impacto direto na qualidade de vida desses trabalhadores e, indiretamente, na qualidade do atendimento prestado à população em situações de emergência, já que profissionais mais saudáveis mental e emocionalmente tendem a oferecer um cuidado mais seguro e humanizado às vítimas de desastres.
